Thursday, October 05, 2006

Diário de Praxes 06/07


Aviso noticioso:

A pedido de várias famílias, irei redigir o diário das praxes. Anne Frank tinha um diário. «Mas diário é coisa de rapariga», argumenta o leitor enquanto depila as pernas. Não desesperem já. Herdei a inevitável habilidade de escrever um diário e continuar a ser homem ao mesmo tempo. Foi graças ao diário de Anne Frank que pudémos ter um vislumbre do que era a vida de uma família judia na II Guerra Mundial. Graças a esse diário, sabemos hoje que eles viviam todos em mansões na linha de Cascais e tinham muitos criados nazis. Pois bem, será graças a este diário que gerações futuras saberão como era dura a vida de um caloiro. Antes de prosseguir, se és uma rapariga entre os 18 e os 25 anos, também tu podes ajudar-me! Se acharem que é muito comprido (o texto) lembrem-se: o tamanho não importa...


Dia 19 de Setembro

Querido diário,

Ai a vida universitária, a vida universitária. Cheguei às 9h40 numa solarenga terça-feira à entrada do IST e agi furtivamente desde então. Procurei não me cruzar com estudantes sedentos de desejos de procriar com a minha pessoa, encontrando abrigo seguro no Centro de Fusão Nuclear, onde existe o tokamak do técnico, que pode explodir a qualquer momento. Depois, fui para a fila, já eram 10h40, na companhia indelével do meu colega. A fila era larga e parecia não ter fim, descrevendo uma curva pitoresca à volta do corredor. «Onde é que elas andarão?», pensei. E eis que então, surgem, como sombras lúgubres sobre mim três ou quatro vultos.

- Segura aqui, vá, bem alto - disse-me um, entregando-me o pesado papel de 'End of File'.

Fui devidamente autografado na testa com o acrónimo 'MEEC'. Chamavam-se Gomes, Miranda e havia também um rapaz loiro. Mais tarde havia-se de juntar ao grupo uma rapariga chamada Catarina acho eu, que teve a gentileza de me poupar a uma praxe pecaminosa. O Gomes explicou-me, no braço direito, o que era um 'ampop' (amplificador operacional) e o ganho que dele advinha, olhando para mim como se não fosse capaz de perceber o que quer que fosse. Recordo-me de ter dito algo que me valeu uma maquilhagem em toda a cara, composta por riscos verticais e o jogo do galo, que o Gomes perdeu. «Deve ter tido uma seca», argumenta o leitor evidentemente preocupado. Era a minha primeira vez, mas o Gomes até foi um rapaz meigo.

A fila receava avançar e o tempo não, o que permitiu que fosse abordado por duas raparigas. «Finalmente», suspirei, após ter tido conhecimento de um facto chocante: o Gomes tinha andado na mesma escola que eu. «Então, o que poderá ter acontecido?», reflecti.

Uma era loira e brincava com a tinta nos dedos, pronta a desenhar-me Cézanne, Picasso em tons de azul. A outra era morena e esboçava um sorriso luzidio, extremamente simpático, que manteve durante as dedadas incessantes. As coisas pareciam estar a melhorar. Agora, imaginava um campo verde, onde corria e pulava todo nu de encontro àquelas duas pintoras inesperadas. Mas o sonho logo se desvaneceu abruptamente, para encontrar um rapaz fardado, o Válter, com os óculos escuros a pender da cabeça que percorria os caloiros com os olhos atentos.

- Quando eu disser "Bin Laden", quero toda a gente virada com o cú para Meca e a rezar! - disse o Válter.

Tive de me prostrar e rezar. O gajo da frente também possuía um nome de rapariga e baloiçava a parte traseira, o que me fez pensar outra vez no campo verde e nas duas raparigas mais uma vez. A seguir veio outro rapaz com esparguete e fez de mim uma gueixa. Mais tarde, já em casa, haveria de escrever as 'Memórias de uma gueixa'. Limpei-me a uma toalhinha cedida pela mãe de um dos caloiros e removi a tinta da maquilhagem. A mãe dele era muito baixa e tinha os ombros muito largos. O Válter então fez com que eu me declarasse a uma senhora que figurava na fila. As duas raparigas apareceram outra vez e pintaram-me de novo, agora de preto e branco. E veio-me à memória, mais uma vez, o campo verdejante.

Aproximei-me da mesa do NEEC, onde estavam duas pessoas. Involuntariamente pensei que uma delas só podia ser maricas. Uma, chamada Catarina ou 'rapariga do NEEC', explicava a um caloiro os procedimentos e vantagens do NEEC. O caloiro parecia ser bom observador, olhando embevecido o decote da rapariga. «O problema da juventude de hoje é estar concentrada nas coisas erradas», pensaria José Sócrates, primeiro-ministro português. A outra pessoa era o presidente da NEEC, Marco Arede. Já agora, deixo aqui um apelo, o qual todo o estudante devoto quer ver respondido: qual é o número de telefone da rapariga do NEEC?


Entrei, por fim, eram umas 14h. Depois dos procedimentos burocráticos aborrecidos cheguei à mesa da Caixa. Ai, a mesa da Caixa. Fui atendido por uma senhora que, faça-se jus à sua pessoa, era muito parecida com uma amiga minha de beleza invejável. As duas pessoas que ainda estão a ler podem pensar agora que «sim, gajas boas, por isto valeu a pena aguentar». Chamava-se Conceição. Foi uma passagem, ainda que breve, divertida. Ela riu-se muito porque pensava que eu estava a pensar nas 'estratégias de marketing' que ela empregava. Eu ria-me muito porque estava a pensar no campo verde, em uvas frescas e em apanhar milho ao pôr-do-sol. Até tive pena de ter de sair de lá. Porém, ficou a promessa de voltar lá na sexta-feira, para entregar documentos em falta.

Depois saltei para a mesa da AE, que foi uma passagem que também deu para travar conhecimentos. O Carlos, que tratou do arraial do ano passado, atendeu-me.

- O ano passado, conseguimos 20 000 pessoas. Foram 12 000 no primeiro dia e 8 000 no segundo. – explicou-me.

O Sporting ficaria muito contente se conseguisse estes números nas bancadas. Talvez ponderem contratar o Carlos.

Após uma conversa sobre o funcionamento da AE entrou na conversa uma outra personagem, Carolina, veterana do ambiente. Voltaria a encontrar a Carol na última sexta-feira de Setembro, no Tribunal da Praxe. «Carol», pensa o leitor que sobra, «eis outro nome de rapariga». Nesta altura também se sentou numa cadeira do lado esquerdo do Carlos uma Inês, rapariga com cabelo castanho claro e sandálias iguais aos que o Gomes tinha. Decidi que havia de ser minha madrinha.

- Se tu continuas assim, vão-te praxar muito. Aliás, eu posso ter esta aparência de fofinha, mas no fundo posso ser má. - disse, a certa altura, a Carolina.

Isto fez-me reflectir sobre o sentido da vida. Ela havia usado o termo «fofinha». A partir daquele momento, a imaginar a Carolina a ser má (no campo verde), apercebi-me que tinha de ser mais discreto. Nos 10 minutos que se seguiram não gozei com mais ninguém.